quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Uma entrevista brutalmente sincera

Qual é o seu ponto fraco?
Bom, eu torço para o Palmeiras, comprei todos os CDs do Bello e além disso já assisti os filmes da série "Crepúsculo" umas nove vezes.

Fale alguma coisa sobre você.
Eu pensei que vocês tivessem recebido o meu currículo. Aliás, você leu?

Onde você se vê daqui a cinco anos?
Com certeza você gostaria de ouvir que eu pretendo continuar me desenvolvendo profissionalmente, buscando novos desafios e também fazendo tudo o que seja humanamente possível para aumentar os lucros da empresa. Falando sério agora: o que você acha? Em cinco anos eu pretendo ocupar a SUA posição e passar os finais de semana na minha mansão em Búzios.

Por que você pediu demissão do seu último emprego?
Porque meu chefe era um imbecil. Os meus colegas não eram melhores: a grande maioria era composta de psicopatas e puxa-sacos. O salário também era uma merda. A propósito: quanto vocês pretendem me pagar, mesmo?

Qual é a sua pretensão salarial?
Novamente, sei exatamente o que você espera ouvir: que dinheiro não é a minha maior motivação, que o principal é encontrar uma posição na qual eu me sinta intelectualmente desafiada e tal. Mas a verdade é que motivação não paga as minhas contas. Os três mil reais que eu ganhava no meu último emprego eram uma piada: totalmente desproporcionais à quantidade insana de trabalho, ou seja, exploração pura. Mas já que você está perguntando, serei sincera. Por menos de oito mil reais líquidos você não conseguirá arrancar um sorriso do meu rosto.

Conte a respeito de um grande desafio profissional que você tenha enfrentado e de como você superou a situação.
Uma vez nós estávamos quase perdendo o prazo para o protocolo de uma contra-minuta de Agravo de Instrumento de Despacho Denegatório de Recurso Especial. Faltavam duas horas para o fechamento do Protocolo no Tribunal de Justiça, e eu não estava nem um pouco a fim de pegar um busão para entregar essa porcaria. Acontece que eu sabia que um outro advogado estava a fim de mim há algum tempo, então eu disse a ele que nós finalmente sairíamos juntos se ele se dispusesse a protocolar a peça para mim. Ele saiu correndo e ainda por cima pagou a conta do boteco mais tarde. O chefe ficou super satisfeito com a minha pontualidade.

Você estaria disposta a mudar de cidade em razão do trabalho?
Você já ouviu falar em Internet? Em Smartphones? Vídeo-conferência? Skype? Eu pensei que estivéssemos falando sobre uma vaga que precisasse ser preenchida em 2010.

Você trabalha bem em equipe ou prefere atuar individualmente?
Ao longo da minha trajetória profissional fui constatando que não gosto de trabalhar, nem sozinha, nem em grupo. Eu diria entretanto que trabalho bem em equipe, já que sou especialmente boa no que se refere à delegação de tarefas.

Por que você quer esse emprego em particular?
Porque as outras propostas que recebi não eram tão boas, financeiramente falando.

Como você avaliaria a sua trajetória profissional até agora?
Bom, no momento estou simplesmente chocada com o fato de que a minha graduação na melhor universidade do país, minha experiência de mais de três anos em um grande escritório de advocacia em São Paulo e meu Mestrado no exterior (no qual investi rios de dinheiro) tenham me trazido até aqui, para ser entrevistada por um tipinho menos experiente do que eu, vestido com um terno barato de poliéster da C&A e que faz perguntas tão espirituosas e originais quanto uma garrafa de cerveja sem álcool.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Hoje nosso querido Deputado Carlos Willian (PTC-MG) proferiu um um parecer favorável ao Projeto de Lei que prevê a descaracterização do vínculo empregatício de sócios ou associados de escritórios de advocacia.

Não é preciso ser advogado para afirmar que a questão extrapola os aspectos puramente jurídicos. Qualquer um que já tenha tido o "privilégio" de trabalhar em grandes escritórios de advocacia sabe que se tratam de verdadeiras empresas. Os advogados "associados" não exercem a profissão de forma independente (em 99% dos casos existe a supervisão dos sócios fundadores); a prestação de serviço é feita com habitualidade (eventuais faltas ao trabalho, ainda que justificadas, são devidamente "punidas"); Há nítida relação de subordinação com relação aos verdadeiros sócios e pagamento de salário. ou seja, de acordo com o artigo 3.º da CLT, esses profissionais são sem dúvida alguma considerados empregados.

Sempre que o empregador deixa de fazer o registro na carteira de trabalho não é apenas um trabalhador que sai prejudicado. TODA A SOCIEDADE perde, já que a contribuições sociais como as realizadas para o INSS e ao FGTS deixam de ser recolhidas. Receber valores “por fora” pode, em um primeiro momento, parecer vantajoso, principalmente porque o advogado "associado" passa a recolher um valor significativamente menor a título de Imposto de Renda, por estar sujeito ao regime tributário do lucro presumido. Isto no entanto É FRAUDE. É CRIME. É CORRUPÇÃO.

Infelizmente, com a aprovação desse malfadado Projeto de Lei, muito em breve não poderemos sequer contar com as autoridades fiscalizadoras do Ministério do Trabalho para tratar o problema de forma preventiva. MUITO OBRIGADA, SENHOR DEPUTADO.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Adoro o conceito de "neo-pobre." Adolescentes como eu em 1997, que andava de calça Levi’s e fazia intercâmbio em Londres. Na geladeira da minha casa nunca faltou danoninho. Neo-pobres não têm dinheiro, assim como os pobres, mas já tiveram um dia. Herdamos a cultura e o bom gosto que o dinheiro pôde proporcionar. Comemos sorvete da Kibon com gosto, mas temos consciência de que ele não é nem mesmo comparável ao Haagen-Dazs de doce de leite. Em resumo,os novos pobres, cujo número aumenta de maneira exponencial, são antigos homens e mulheres da classe média. E eles conservam dela a lembrança, a nostalgia e os hábitos.

Será o caso esperar que o surgimento dessa nova classe social seja um fenômeno temporário? Podemos supor que esse desastre esteja ligado à tal crise financeira? Na minha opinião, foi justamente o declínio da classe média o fator preponderante para o aparecimento da crise. O que aconteceu? A classe média americana, reduzida e necrosada há anos, apelou ao crédito farto para disfarçar sua própria agonia e manter as aparências por algum tempo. Esse fenômeno não é conjuntural nem aleatório, é fatal.

Mesmo na Europa ele progride mais ou menos com a mesma velocidade, seja qual for a ideologia, o talento ou a prática dos governos que estejam no comando. Direita, esquerda, centro, os governos podem mudar, mas a classe média continua sumindo. Quando eu estava na Itália, comprei um livro super interessante sobre o assunto.

Os novos pobres são educados. Alguns são médicos, advogados, matemáticos, artistas. Após concluir seus estudos, eles ganham, supondo que consigam emprego, mil euros. mensais . E a cada ano chegam ao mercado novas multidões desvairadas, carregadas dos mais sólidos diplomas, aos quais a sociedade oferece situações grotescas.

Em uma entrevista que fiz recentemente, ofereceram-me R$ 1.200,00 mensais. Quais seriam minhas atribuições? Além do feijão com arroz jurídico, eu certamente teria que me manter atualizada, falar inglês e espanhol, fazer horas extras não remuneradas e comparecer ao escritório devidamente trajada. Em um cálculo superficial, a assinatura de um jornal e a mensalidade da Associação dos Advogados de São Paulo, sem mencionar a anuidade da Ordem dos Advogados do Brasil, bem como refeição e transporte consumiriam quase cinquenta por cento mensais do valor dessa ofensa indevidamente chamada de salário. Em outras palavras, eu praticamente pagaria para trabalhar. Durante o período de estágio, sinceramente achei que o investimento valia a pena e acabei me submetendo a condições bem parecidas às que descrevi. Mas AGORA, a essa altura da minha vida?

Imaginei a faxineira / copeira desse malfadado escritório de advocacia. Ela deveria ganhar algo em torno de R$ 600,00, mas com vale-transporte, vale-refeição, décimo terceiro e FGTS. Ela, ao contrário de mim, poderia se inscrever no Programa "Minha casa minha vida." E não precisou aprender inglês ou espanhol; tampouco teve que estudar feito retardada para concluir o seu curso de graduação em uma Universidade de primeira linha. Além disso, trabalhando de uniforme, não precisaria fazer um crediário nas Lojas Marisa para comprar um terninho minimamente apresentável.

Portanto, amargura, desejo de revanche, desestabilização social, revolta ou revolução? Pensamentos revolucionários que NUNCA me visitaram estão cada vez mais presentes. Para os neo-pobres não há política social alguma: a tal bolsa-esmola se destina aos excluídos tradicionais, analfabetos com nove filhos desnutridos.

Muitas vezes é a família que permite a esses jovens sobreviver e manter uma aparência de dignidade. O sistema, no entanto, não é eterno. Os próprios pais estão sendo pouco a pouco vitimados pela pauperização. Embora sejam também vítimas do declínio da classe média, continuam a desfrutar de uma vida mais digna e confortável do que a de seus filhos. O desaparecimento da classe média, produziu essa consequência perversa: hoje, os filhos sabem que não atingirão na sociedade a posição que seus pais alcançaram.

Até recentemente, o esquema era inverso: o filho vivia com a perspectiva, a promessa, de viver uma vida mais brilhante, mais bela, mais expansiva do que a de seus pais. Essa perspectiva era um dos incentivos que impeliam os jovens a trabalhar para superar seus pais. Hoje, em lugar dessa esperança, há somente desânimo e resignação.
Não é pouca coisa quando o contador do reconhecimento social recua a números negativos. Nesse grande movimento regressivo, toda a trajetória que você percorreu até então é anulada. Tudo o que eu pacientemente construí desmoronou. Sou grata por não ter filhos. O que eu diria a eles? "A meritrocracia é um conceito ultrapassado", ou "dê duro, estude bastante, um dia você será recompensado"? Aliás, a mim mesma, o que posso dizer? Com que credibilidade?
A minha relação com os meus amigos brasileiros durante essa fase é um capítulo à parte. No começo você ainda tenta, telefona, manda mensagens. Cada um está em seu posto, com suas urgências, seus objetivos. Quando se estabelece alguma forma de comunicação, uma espécie de vácuo predomina, de tal maneira divergem os interesses e preocupações. Os telefonemas vão escasseando, e depois de certo tempo não merecem retorno.
Meu retorno ao Brasil foi um verdadeiro desastre pessoal. Precipitação, desgraça, desvalorização, tudo junto. E ninguém dá a mínima, ninguém acredita: "Ah, você ainda vai dar a volta por cima...", ou "você certamente tem feito alguma coisa errada durante as entrevistas...". Vivo um drama negado pelos outros. Ninguém me enxerga como desempregada.
Eu vivi durante anos num meio frenético e sempre renovado de advogados, estagiários, juízes e promotores. É incrível observar que, no campo das ofertas, NADA restou dessa coisa fervilhante. O verdadeiro mercado de trabalho é subterrâneo, invisível à primeira vista. Na superfície, bóiam pequenos prêmios de consolação: cargos em pequenos escritórios de advocacia com nomes sugestivos como "Silva e Pereira", salários infames, propostas surrealistas.